O Festival de Brasília de 2018 premiou Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados como melhor curta-metragem. No filme o coletivo de realizadores e o Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), narram uma noite em que famílias ocupam um terreno para construir suas moradias.

O filme foi feito com sons e imagens de arquivo de três ocupações distintas e na tela criam um espaço único. Ainda que seja um arquivo recente, produzido de 2015 em diante, de alguma forma me fez pensar que há tempos podemos ver nas ocupações mãos com enxadas, bocas de lobo, panelas e câmeras. Na época do videocassete tinha ocompanheiro que filmava os casamentos da comunidade e levava uma Panasonic de ombro. Às vezes alguém conseguia até articular um/a profissional. E destas parcerias surgiram imagens símbolo de alguns Movimentos, como as fotografias de Sebastião Salgado das primeiras ocupações do MST no Oeste do Paraná.

Foto de Sebastião Salgado publicada em seu livro “Terra”, de 1997. A obra tem introdução do escritor português José Saramago e versos de Chico Buarque

Vinte anos depois, quem tem um telefone tem uma câmera. E alguns policiais tem ainda uma Go-Pro acoplada no capacete. Mas outras coisas também mudaram. A gente encontra mais jovens nas periferias cursando jornalismo, fotografia e cinema. E se intensificaram as oficinas de audiovisual nas áreas conquistadas pela luta popular. Essa mudança aproxima a jovem acampada da possibilidade de produzir um filme. E o cineasta que vai fazer uma oficina conhece de perto a luta e decide se vincular àquela organização.

Estar organizado em um movimento não é condição para fazer bons filmes. Há quem diga que pode ser um obstáculo. Mas, no caso do Conte isso àqueles que dizem que fomos derrotados foi fundamental. Por fazerem parte do Movimento, alguns realizadores carregaram o enxadão, a panela e a câmera. Assim, geraram e cuidaram de um acervo cotidiano do conflito por moradia em Belo Horizonte. Fruto de uma oficina e uma marcha, realizaram o curta Na Missão, com Kadu (2016). Antes, fizeram filmes para apoiar demandas como a construção da Creche Eliana Silva.

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